
O monarca do futebol fluminense na primeira década do século XXI é natural de um país sem a menor tradição boleira e tem nome difícil: Dejan Petkovic. O título brasileiro conquistado pelo Flamengo sob a batuta do novo velho maestro coroa a passagem do jogador pelo Rio de maneira que nem mesmo o mais otimista rubro-negro esperava.
Reservado, articulado, inteligente, empreendedor, culto. Adjetivos não faltam a este atleta de 37 anos que superou, além da expressão nula da Sérvia no futebol mundial, as constantes guerras civis que assolaram sua nação, duas vezes separada.
Em dez anos de idas e vindas no Rio de Janeiro, o gringo, que chegou a atuar sem destaque pelo poderoso Real Madrid, defendeu com louvor e títulos três dos mais importantes clubes da cidade: Flamengo, Vasco e Fluminense. Mas foi na Gávea que Pet escreveu suas mais brilhantes páginas.
Sua estreia carioca aconteceu em 2000, justamente pelo time rubro-negro. Nesta temporada, o desentendimento do meia com o atacante Edílson até poderia ser o principal acontecimento em seus primeiros anos no clube, mas as conquistas superaram de longe a briga de egos.
Dois estaduais e uma Copa dos Campeões, que levou o Flamengo à Libertadores de 2002. No entanto, o título em âmbito nacional ficou quase esquecido após um lance que Pelé não pensaria duas vezes em assinar.
Uma cobrança de falta precisa e decisiva aos 43min do segundo tempo. Não bastasse a notória dramaticidade da jogada, este gol valeu muito mais que um tricampeonato estadual. Valeu a eterna gozação dos flamenguistas aos rivais vascaínos, que amargaram a derrota nas três ocasiões.
A compensação, ainda que não na mesma proporção, aconteceu em 2003, quando o sérvio liderou o time de São Januário no triunfo na Taça Guanabara, que, mais tarde, resultaria no título fluminense – o último do clube, por sinal. Pet se transferiu para o futebol chinês no meio da competição e não pode erguer a taça.
De volta ao Vasco na temporada seguinte, o estrangeiro foi um dos poucos a se salvar na pífia campanha no Brasileirão, livrando o time do rebaixamento. O destaque no elenco cruzmaltino valeu um contrato e os petrodólares do Al-Ittihad, da Arábia Saudita.
Seis meses e visibilidade zero foram suficientes para o jogador aceitar voltar ao seu berço futebolístico, desta vez pelo Fluminense. Apesar de disputar poucas partidas pelo Tricolor no ano, Pet anotou seu nome na história do clube, ao marcar o milésimo gol em Campeonatos Brasileiros. Mais uma de suas obras-primas, aliás, ao deixar três cruzeirenses no chão e concluir na saída do goleiro, na goleada por 6 a 2 em pleno Mineirão.
De quebra, o meia foi eleito o melhor jogador de sua posição na competição nacional. Em 2006, Tricolor das Laranjeiras não obteve grande destaque, mas o prestígio de Petkovic mantinha-se inabalável. O camisa 10 chegou a vetar a contratação do desafeto Edílson pelo Flu.
Dois anos e meio de quase ostracismo em tradicionais clubes nacionais, como Goiás, Santos e Atlético-MG, fizeram com que os críticos classificassem o sérvio como um ‘ex-jogador em atividade’.
Tanto é que seu retorno ao Rio de Janeiro, no meio de 2009, virasse motivo de chacota dos rivais e alívio aos combalidos cofres do Flamengo, clube que o ‘acolheu’. A vontade do jogador em encerrar sua carreira pela equipe que mais lhe trouxe alegrias fez com que Petkovic abrisse mão de processos judiciais ocasionados por uma pomposa dívida adquirida em seus tempos áureos de Gávea.
Tal medida levou, inclusive, ao afastamento voluntário de dirigentes contrários à contratação do meio-campista. Reserva e conselheiro do elenco rubro-negro em um primeiro momento, o gringo ganhou espaço com a chegada do técnico Andrade e à falta de opções para a sua posição na equipe.
Apesar da desconfiança inicial, bastaram poucos jogos para Pet conquistar a titularidade e o status de líder do time em campo. Autor de gols importantes, como os dois – um deles olímpico - na vitória diante do Palmeiras, então líder do Brasileiro, fora de casa, levaram o jogador a dividir com o atacante Adriano o coração dos torcedores.
A epopeia do sérvio aconteceu neste domingo, no sofrido triunfo sobre o Grêmio por 2 a 1, e a coroação de uma arrancada impressionante com o sexto título nacional do Flamengo. Pois então, o gringo de nome difícil é ou não é o Imperador do Rio na década?
Um comentário:
Olá, muito legal seu texto, passei para conhecer.
Bjs!
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